O que é adoração?

A adoração está enraizada em nosso ser. Caso contrário, como entenderíamos textos como o Salmo 115, onde o salmista postula que “prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens”, e que “tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e quantos neles confiam”, demonstrando a profunda associação daquilo que somos com o que adoramos. Nesse sentido, a adoração é parte constituinte do ser humano. Somos adoradores daquilo que amamos. Como observa Agostinho, “meu peso é meu amor. Para onde sou levado é meu amor que me leva”. James K. A. Smith acrescenta: “Os amores que nos orientam são como um tipo de gravidade, carregando-nos na direção em que pesam”.


Isso é ao mesmo tempo transformador e difícil de entender em uma cultura esquizofrênica e confusa como a nossa. De um lado existe a “coisificação do pensamento”, ou seja, uma perspectiva que interpreta o epicentro do homem como a mente, ilustrada por Descartes com sua famosa frase “Penso, logo existo”. Em outro extremo, o homem é entendido como o conjunto de sentimentos que o habitam. Nesse sentido, “Sinto, logo existo”.


Para dificultar nosso entendimento sobre adoração, soma-se o surgimento de alguns conceitos que exercem influência quando ouvimos falar em adoração. Um deles é o Contemporany Worship Music – CWM, conhecido como “movimento de louvor e adoração” no Brasil. Seu aparecimento se deu no fim dos anos 60, quando muitos jovens provenientes do estilo de vida hippie se converteram. Como observa o professor Alberto Lima, “obviamente, muitos destes jovens olharam para Cristo somente como mais uma de suas ‘viagens’, mas muitos deles se tornaram genuínos discípulos de Cristo”. Muitos ainda encaram a adoração como uma experiência transcendental restrita a um ambiente propício a manifestações corporais atípicas. É preciso esclarecer que não discordo dessa possibilidade, todavia, é demasiadamente restritivo compreendermos adoração dessa maneira, enquanto ela fala sobre toda a direção que tomamos em nossas vidas.


Muitas pessoas entendem intelectualmente as doutrinas centrais do cristianismo, mas não conseguem fazer com que adentrem o seu ser e as transformem. Isso porque a regeneração é obra exclusiva do Espírito Santo, pois como disse Jesus: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. Uma vez regenerados pela obra do Espírito Santo, “nossos amores são estimulados pelo fogo renovador do Espírito, nosso peso tende para cima” (Smith, 2017, p. 35).

Expostas as devidas considerações sobre nossa natureza e um breve recorte histórico, podemos passar para um entendimento mais claro de adoração.


Conhecendo como nos devotamos àquilo que amamos, Cristo, quando perguntado sobre o maior mandamento, responde: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. A verdadeira adoração brota do verdadeiro amor a Cristo. Tal privilégio é, portanto, negado àqueles que não amam e reconhecem a obra de Cristo em nosso favor. Pois, como enfatizado por Deus antes de proferir os dez mandamentos, “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei do Egito, da casa da servidão”. Uma vez reconhecida sua imensa graça e amor para conosco aos nos vivificar da morte espiritual e nos libertar do cativeiro do pecado, segue-se a possibilidade de cumprir o que se diz adiante: “Não terá outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, [...] não as adorarás, nem lhes darás culto”.

Calvino, comentando o primeiro mandamento, escreve:


“Chamo adoração a veneração e o culto que cada um de nós presta a Ele quando se submete à sua grandiosidade, pelo que requeiro, não sem razão, submetermos nossa consciência à sua Lei. [...] Pois é de todo lícito que não se afaste d’Ele nem um pedacinho de sua glória, para que resida com Ele tudo o que lhe é próprio” (Calvino, 2008, p. 363).

Embora adoração seja amplamente entendida em nossos dias como um meio para um fim direcionado ao homem, essa é uma mentira absurda que se infiltrou na igreja em tempos de individualismo supremo. Nesse sentido, muitos adoram com diversos propósitos, como observa Hughes Oliphant:


“É nos dito que deveríamos adorar porque isso nos traz felicidade. Algumas vezes a adoração nos faz feliz, mas nem sempre. É nos dito que deveríamos adorar porque isso nos dá um senso de auto realização. Realmente, a adoração cumpre o propósito da nossa existência, mas nós nãos adoramos porque ela nos traz auto realização. [...] Alguém sempre pode ter médicos e gurus, que defendem rito religiosos por amor à boa saúde, sucesso financeiro ou paz mental. Verdadeira adoração, contudo, é distinta de tudo isso, na medida em que serve, acima de todas as coisas, ao louvor d glória de Deus”.

Deus nos criou para glorificá-lo, ou seja, adorá-lo. Quando buscamos em outro lugar a satisfação que apenas Cristo pode oferecer, estamos criando ídolos para prestar culto. O resultado é a constante insatisfação existencial, pois na adoração ao verdadeiro Deus e Pai somos satisfeitos e completos. Eis aí a grande crise dos conteúdos de adoração dos cristãos contemporâneos: Quando direcionam a adoração para fins que não à glória de Deus, estão enterrando a possibilidade das pessoas alcançarem o sentido da vida. Ao render a glória devida ao nosso grandioso redentor, somos, por misericórdia divina, satisfeitos n’Ele. Como observa o Salmista, “na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”.


Quando buscamos em nós, não encontramos o que buscamos, quando buscamos n’Ele, encontramos o que não poderíamos imaginar, salvação, satisfação, plenitude, valor e propósito. É claro que não estou dizendo que buscávamos especificamente a Deus, isso seria loucura, pois estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Contudo, procurávamos a felicidade e não a encontrávamos. Andávamos errantes em busca do sentido e propósito da vida e, mesmo tendo olhos, não podíamos enxergar, pois éramos como os nossos ídolos. Tínhamos olhos que não enxergavam e ouvidos que não ouviam. “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande mor com que nos amou, e estando nós mortos em delitos, nos deu vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos”. Sem um entendimento correto da salvação doada por Cristo a nós pela graça, a adoração está mutilada. Invertemos os papéis e nos interpretamos como seres munidos de méritos diante de Deus. Em contrapartida, a adoração bíblica é o movimento de um pecador destituído de qualquer conquista e mérito pessoal adorando àquele que o criou e redimiu. Paulo, escrevendo aos Romanos, demonstra muito bem essa verdade.

Do capítulo 1 ao 3 Paulo expõe a culpabilidade humana diante de Deus devido ao próprio pecado. Os gentios são culpados, “porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.” Observe como a adoração está no centro da argumentação do apóstolo. Os gentios mudaram a glória de Deus e se devotaram aos ídolos.


A reação de Deus diante de tamanha ofensa é que “por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!”. A devassidão de tais homens procede da adoração deturpada, pela qual foram entregues por Deus aos próprios caminhos e desejos. Como que em um gesto de oposição a essa blasfêmia, Paulo finaliza com uma doxologia, referindo-se ao verdadeiro Deus ao dizer “o qual é bendito eternamente. Amém!”.


Essa era a nossa vida, adorávamos e servíamos aos ídolos de nossos corações, sendo que, a fim de encerrar todo o gênero humano debaixo do pecado, Paulo escreve no capítulo 3: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus.”[14] Aqui faço uma observação ao meu ver necessária: é por ocasião de nossa depravação que estamos impedidos de saber como o Senhor deve ser adorado. Muitos acabam caindo na mentira que o Senhor pode ser adorado como bem entendemos, contanto que seja em liberdade. Entretanto, o livro de Levítico é escrito com o propósito de orientar a nação de Israel sobre como cultuar a Deus. Segundo David Dockery, “o propósito geral do livro de Levítico era comunicar a maravilhosa santidade do Deus de Israel e delinear os meios pelos quais o povo poderia ter acesso a ele”. Se um livro inteiro do Pentateuco foi escrito com o objetivo de orientar o culto ao Senhor, fica evidente que ele concede valor a tal matéria.


Porque Deus é soberano e totalmente santo, Ele mesmo deve prescrever a forma que deseja ser servido. Através do profeta Malaquias Ele proclama ao povo: “Quando trazeis animal cego para sacrificardes, não é isso mal? E, quando trazeis o coxo ou o enfermo, não é isso mal? Ora, apresenta-o ao teu governador; acaso, terá ele agrado em ti e te será favorável? – diz o Senhor dos exércitos. [...] Tomara houvesse entre vós quem feche as portas, para que não acendêsseis, debalde, o fogo do meu altar. Eu não tenho prazer em vós, diz o Senhor dos exércitos”. O que Deus está dizendo é que o culto desse povo estava sendo rejeitado por Ele e, tomara houvesse um homem corajoso que fechasse as portas do templo para que tal profanação fosse cessada. Se qualquer culto é aceitável diante do Senhor, como postulam alguns, por qual motivo o Senhor rejeitaria o culto dos contemporâneos de Malaquias?


Do capítulo 5 ao 8 Paulo trabalha a nossa esperança da salvação em Cristo Jesus, sendo que no capítulo 9 ele introduz o tema da eleição. Ao citar o exemplo de Jacó e Esaú ele diz que “E não ela somente [referindo-se a Sara], mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú.”

Sabendo que muitos poderiam objetar e dizer: “Isto é injustiça da parte de Deus!”, Paulo responde antecipadamente: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.”


Não é meu interesse o aprofundamento na tensão teológica entre predestinação e liberdade, mas apenas explicar o contexto de uma das maiores declarações de adoração da escritura. Ao finalizar esse trecho sobre a salvação, o que resta a Paulo é apenas o louvor ao Deus soberano e gracioso. No capítulo 11.3 ele exclama: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”.

Tudo o que existe é para a glória de Cristo que, em sua maravilhosa graça, “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” Um cristianismo recheado de autossuficiência é um empecilho à legítima adoração, pois como disse o Senhor por meio do profeta Isaías: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura.” Isto Ele diz após afirmar que traria salvação aos gentios por meio de um mediador, a saber, Jesus Cristo.

Deseja adorar ao Senhor em verdade? Se despida da autojustificação e receba a justiça proveniente da Cruz de Cristo. Ao entendermos isso, poderemos exclamar: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”.

À luz da beleza de nosso Senhor, entender adoração em termos individualistas é um sacrilégio incomensurável. É a tentativa do homem de tomar o lugar de Deus. É o pecado de Adão e Eva reverberando e encontrando bocas para louvá-lo dentro de nossas congregações. Adoração que não se concentra em Deus é idolatria.

Para os primeiros cristãos, a adoração era não apenas um mero estilo musical, como entendido por muitos, mas uma inclinação de toda a nossa existência, que deveria ser centrada em Cristo e se manifestava em ocasiões públicas como o culto. Sobre isso Calvino comenta que “acrescenta-se imediatamente o propósito mais elevado e último, a saber: o glorioso louvor de uma graça infinitamente rica. Todo homem, pois, que oculta esta glória está contribuindo para o ofuscamento do propósito eterno de Deus”.


Concluindo, devo enfatizar algumas aplicações para o nosso contexto brasileiro. Em primeiro lugar, é triste saber que a maioria dos conteúdos sobre adoração foi escrito por músicos que pouco estudaram sobre o assunto. John Cooper, vocalista da banda Skillet, observou que isso é um sério problema no cristianismo moderno. Segundo ele:


“Há vinte anos venho dizendo (e eu provavelmente parecia ser bastante crítico para alguns de meus colegas) que estamos em um terreno perigoso quando a igreja direciona seus olhares para cantores de louvor de vinte anos de idade como sendo nossa fonte de verdade. Agora temos uma cultura de igreja que aprende quem Deus é cantando canções de louvor modernas, ao invés de aprender isso a partir dos ensinamentos da Palavra. Não estou sendo rude com meus amigos líderes de louvor (muitos deles concordariam comigo) em dizer que cantores e músicos são bons em comunicar emoções e sentimentos. Criamos um momento e um veículo para Deus falar. Contudo, os cantores nem sempre são os melhores para escrever verdade e doutrina bíblicas sólidas. Às vezes, somos muito jovens, ignorantes demais nas Escrituras, ignorantes demais ou despreocupados demais com a pureza das Escrituras e a santidade do Deus a quem estamos cantando. Você já considerou como é desrespeitoso cantar canções a Deus que são falsas sobre seu caráter?”

Os cristãos são educados e alimentados principalmente pelas músicas. A pergunta é: Que tipo de alimento nossas canções estão oferecendo? Como observou Bruce Shelley, a história do cristianismo é a história dos hinos de adoração. Grandes problemas teremos se tudo o que tivermos for um culto ao “eu”.


Em segundo lugar, a adoração é abrangente, e devemos desvencilhá-la da mente dualista tão influenciada pelo gnosticismo. Nesse sentido, ela deve adentrar o nosso cotidiano e moldar nossos amores em direção a Cristo. A vida do cristão é Coram Deo, ou seja, vida perante a face de Deus. Dessa forma, tire as suas sandálias, que a terra onde pisa é santa. Nosso dever é a submissão à sua vontade em todos os ambientes. Seja trabalhando, comendo, tomando café, praticando esportes ou ensinando as escrituras, tudo deve ser feito como adoração ao Senhor.


Em terceiro lugar, não devemos colocar todo o nosso foco no intelecto das pessoas, como se essas fossem mentes ambulantes. Diferentemente dos positivistas científicos que, no século XIX creditaram o progresso ao acúmulo de conhecimento, nós sabemos que o ser humano é guiado por seus amores. Nesse sentido, temos muito a aprender com o cristianismo oriental que, em sua essência, busca formar as identidades através de liturgias bem enraizadas. Devemos usar nossa riqueza litúrgica a fim de direcionar os amores a Cristo e através da operação e convencimento do Espírito Santo esperar que as pessoas adorem ao redentor.


Finalmente, nossas inquietações serão apaziguadas quando entendermos que “tudo foi criado por meio dele e para ele”. Aí poderemos louvar com segurança e dizer que “não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória”. Um novo tempo se descortinará diante de nós ao sabermos o fim de nossa existência.


Que Deus nos ajude!

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