O evangelho é a resposta para a cultura do cancelamento

Em nossa cultura contemporânea revivemos antigas práticas de linchamento e condenação pública. Nessa nova roupagem, o instrumento é diferente, mas a natureza e os objetivos são os mesmos.


O princípio da remoção de sujeiras e manchas indevidas, bem como o desejo de efetuar justiça com as próprias mãos são fortes propulsores de toda a cultura do cancelamento. Neste sentido, os grandes regimes totalitários e perspectivas racistas são claras tentativas de remover uma espécie de sujeira incômoda.


O cancelador anseia em exercer a função de uma borracha social, capaz de santificar a sociedade, tornando-a pura e imaculada. Vidas são dilaceradas, muitas vezes porque não utilizaram o termo "correto". Um pequeno passo fora e a borracha do cancelamento está pronta para apagá-lo. Diferentemente da distopia "1984", de George Orwell, o papel de repressão não é conduzido, neste caso, pelo estado, mas pela própria sociedade civil. A mudança do vocabulário, como a novafala da distopia e os gêneros neutros da atualidade, nada mais são do que maneiras de controlar o pensamento e governar as virtudes.


Muitas ações estão sendo organizadas na tentativa de confrontar a cultura do cancelamento. Qual o problema com elas, até aqui? Sua ineficácia consiste na impossibilidade de explicar como a culpa pode ser expiada, ou seja, retirada. Nos termos já citados, onde está a sujeita, como ela pode ser removida e como a justiça será feita?


A notícia anunciada pelo evangelho é a solução para o cancelamento. Apresento alguns motivos.


Em primeiro lugar, o evangelho nos apresenta a profundidade das nossas próprias falhas. A sujeira, nós começamos a perceber, não é apenas o outro, pois interiormente conhecemos nossa culpa. Cancelar o outro proporciona uma sensação de pureza naquele que cancela. Confrontado por uma percepção baixa acerca de si mesmo, precisa atacar e esnobar a fim de aplacar sua decepção consigo mesmo. Como observou Alain de Botton,

"existe terror por trás da arrogância. É preciso que tenhamos sido punidos pelo nosso próprio complexo de inferioridade para permitir que os outros achem que não são bons o bastante para nós".

Diante do "espelho sincero" do evangelho, termo utilizado por Lutero, somos esmagados pelo peso dos nossos pecados. Na contemplação da Cruz de Cristo, descobrimos a profundidade de nossa depravação, mas também a altura inatingível do amor de Cristo por nós. Nossa identidade é descoberta e nosso valor é afirmado em Cristo. A necessidade do cancelamento é enfraquecida.


Em segundo lugar, o evangelho expõe como a sujeira é removida. Não por obras de bondade própria, a qual usamos para aquietar nossas consciências, linchamento social ou políticas centralizadas, mas pelo sacrifício do Cristo crucificado. O fato do evangelho proclamar que Cristo, pela ação do Espírito Santo, é quem remove a sujeira, é relevante, uma vez que parte do cancelamento é tomar para si a responsabilidade de purificar a sociedade. A boa notícia do evangelho é que, na Cruz, Cristo era o "cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo".


Muitas podem ser as propostas para resolver o problema do cancelamento. Nenhuma delas, contudo, é capaz oferecer o que o evangelho oferece:

"Vinde a mim, todos o que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. [...] Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve". (Mateus 11.28)
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